O Existir Além do Ninho

Acordado a minha sombra vejo o passar de um dia em que não mais existe, dia esse que se despede como sobra do que não fui... do que não fiz... do que não tratei de ser...
... Mais um dia que me beijou com tênue sofrimento do perdido e foi-se... Mais uma vez levou um pouco de mim... Logo de mim, que nem passei a ser, apenas existo cumprindo ações que definitivamente me conectam a lugar nenhum... se não a minha insistência de prosseguir... de olhar... de silenciar o que nem poderia falar... cá conecta a minha inexistência...
Dor torna-se placebo de viver num lugar esquecido pelo sentimento de satisfação... como um miúdo filhote longe do ninho... longe de tudo que gera e é de fato felicidade... bem, esta foi-se há tempo e pois no lugar sua prima, a inquietude...
...Não careço de estar feliz a todo tempo, mas hoje como nos últimos dias tenho tido preguiça de sorrir... não pelo exercício facial, mas por ter a falta de estímulo disponível a minha volta...
...Tudo é muito teatral, mas um teatro sem lona... sem motivo interpretativo.... apenas com a consciência decadente do existir... do cá existir... em terras de ninguém... em solo de aniquilação dos mais prestigiosos sentidos...
De tudo tenho a certeza que o amor só é bom se doer e esse... ah!... dói... dói tanto que cansei-me de me fazer doer... de me fazer acreditar, até porque crença é algo findo desde tempos outrora.

Participo do banquete de terras de ninguém... Ninguém com olhos marejados de cansaço... de existir apenas num grande teatro em que se tornou tudo isso... Com uma taça de espumante aguardando a próxima cansativa apresentação da vida... sem cor... sem riso... sem fala... Apenas como um forasteiro numa estação aguardando o trem para sair de tudo isso... de repente esse trem chame-se amanhã... ou... enfim, apenas a escrita diária do existir de qualquer ser humano.

Filipe Rezende de Souza.






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